Quem Foi o Rei Joacaz de Judá? A Intervenção do Egito e o Exílio de Salum

A história da monarquia em Judá toma um rumo trágico e definitivo imediatamente após o falecimento do zeloso rei Josias. Coroado pelo povo da terra em meio ao luto nacional e ao caos geopolítico gerado pela Batalha de Megido, Joacaz (também conhecido nas Escrituras como Salum) assumiu o trono em Jerusalém para um governo epímero de apenas três meses. O seu reinado assinala o fim da independência soberana do Reino do Sul e a inauguração de uma dolorosa era de vassalagem e deportações promovidas por impérios estrangeiros. A sua biografia é o testemunho solene de quão rapidamente as conquistas espirituais de uma geração podem ser dissipadas quando os sucessores do trono rejeitam o legado da Palavra e preferem retornar aos velhos caminhos da impiedade.
1. O Cenário e a Crise Histórica
O ano de 609 antes de Cristo representou uma das maiores viradas geopolíticas na história do antigo Oriente Próximo. Com a ruína acelerada do Império Neoassírio, a Babilônia liderada por Nabopolassar reivindicava a hegemonia da região, enquanto o Egito da 26ª Dinastia, governado pelo faraó Neco II, marchava rumo ao norte para tentar conter o avanço babilônico e restabelecer o domínio egípcio sobre o Levante.
A trágica tentativa do rei Josias de interceptar o exército egípcio em Megido resultou em sua morte e deixou a corte de Jerusalém em profunda desorientação. Com a queda de Josias, o am ha-aretz ("povo da terra") agiu rapidamente para preencher o vácuo de poder e assegurar a sucessão da dinastia davídica, preterindo o filho mais velho de Josias (Eliaquim/Jeoaquim) e ungindo o seu filho mais novo, Joacaz, como rei em Jerusalém.
Apesar do colapso iminente da nação e da crescente opressão das potências pagãs, a promessa de Deus à casa de Davi, estabelecida em 2 Samuel 7:12-16 e 1 Reis 11:36, permaneceu como o pilar teleológico da História da Redenção. Mesmo quando os reis terrenos de Judá eram depostos e levados cativos por soberanos estrangeiros, o Senhor preservava a linhagem régia da qual viria o Messias prometido.
Conforme registrado em 2 Crônicas 36, versículos 1 a 4, e 2 Reis 23, versículos 31 a 34: "Tinha Joacaz vinte e três anos quando começou a reinar e reinou três meses em Jerusalém. Sua mãe se chamava Hamutal, filha de Jeremias, de Libna. Fez o que era mau aos olhos do Senhor, segundo tudo o que fizeram seus pais. Porém o faraó Neco o prendeu em Ribla, na terra de Hamate, para que não reinasse em Jerusalém; e impôs à terra um tributo de cem talentos de prata e um talento de ouro. Também o faraó Neco estabeleceu a Eliaquim, filho de Josias, rei em lugar de Josias, seu pai, e lhe mudou o nome para Jeoaquim; porém tomou a Joacaz e o levou para o Egito, onde morreu."
2. A Trajetória Completa: A Reversão Espiritual, a Cativação em Ribla e a Elegia do Leão Aprisionado
O governo de Joacaz durou exatos noventa dias, mas esse curtíssimo intervalo de tempo foi suficiente para demonstrar o seu rompimento com a piedade de seu pai. O texto bíblico registra categoricamente que Joacaz "fez o que era mau aos olhos do Senhor, segundo tudo o que fizeram seus pais" (2 Reis 23:32). Em vez de consolidar as reformas bíblicas e a celebração da Páscoa promovidas por Josias, Joacaz e a corte ao seu redor permitiram o rápido retorno das práticas sincretistas e da injustiça social, revelando que a reforma de Josias não havia transformado a alma da aristocracia de Judá.
Neco II, após reorganizar suas forças e estabelecer seu acampamento militar em Ribla, na terra de Hamate (no norte da Síria), não tolerou a coroação autônoma efetuada pelo povo de Jerusalém sem a autorização da coroa egípcia. O faraó ordenou que Joacaz comparecesse à sua presença em Ribla, onde o despojou da coroa, mandou prendê-lo com cadeias e o levou cativo.
Para demonstrar o seu domínio absoluto sobre o Reino de Judá, Neco II impôs à nação um pesado tributo financeiro de cem talentos de prata e um talento de ouro. Além disso, o faraó depôs Joacaz e colocou no trono de Jerusalém o seu irmão mais velho, Eliaquim, alterando arbitrariamente o seu nome para Jeoaquim — um gesto suserano que simbolizava a autoridade do monarca egípcio sobre o trono de Davi.
Joacaz foi levado acorrentado para o Egito como prisioneiro de guerra, onde permaneceu até o fim de seus dias, tornando-se o primeiro rei da linhagem de Davi a morrer no exílio em terra estrangeira. O profeta Jeremias, testemunha ocular desse drama nacional, pronunciou uma profecia comovente e severa em Jeremias 22:10-12, exortando o povo a não chorar pelo falecido rei Josias, mas a chorar amargamente por Salum (Joacaz): "Não choreis o morto, nem dele vos compadeçais; chorai amargamente aquele que vai, porque nunca mais voltará, nem verá a terra onde nasceu. Porque assim diz o Senhor acerca de Salum, filho de Josias, rei de Judá, que reinou em lugar de Josias, seu pai, e que saiu deste lugar: Nunca mais voltará para aqui; mas no lugar para onde o levaram cativo, ali morrerá e nunca mais verá esta terra."
Mais tarde, o profeta Ezequiel, em sua visão das lamentações sobre os príncipes de Israel (Ezequiel 19:1-4), retratou a mãe de Joacaz (a nação/Jerusalém) como uma leoa que criou os seus leõeszinhos. Joacaz tornou-se um leãozinho que aprendeu a apanhar a presa e devorou homens, mas as nações ouviram falar dele, ele foi apanhado na cova delas, e o levaram com ganchos para a terra do Egito.
3. Análise Filológica e Texto Original
A terminologia no texto hebraico traz preciosidades de inestimável valor exegético para compreender a identidade, a nomeação e o julgamento de Joacaz.
O nome de coroação do rei no masorético é Yeho'achaz (ou Jeoaquaz), uma construção teofórica composta pelo Nome Divino Yahu e pela raiz verbal achaz, que significa "segurar", "tomar posse" ou "sustentar". O nome traduz-se como "Yahweh Apressou-se em Segurar" ou "Aquele a quem Yahweh Sustenta". A ironia exegética da sua biografia reside no fato de que Joacaz recusou-se a ser sustentado pela mão de Yahweh, terminando os seus dias preso pelas cadeias do faraó do Egito.
Em Jeremias 22:11 e 1 Crônicas 3:15, o rei é chamado pelo seu nome de nascimento: Shallum (ou Salum), derivado da raiz shalam, que significa "pago", "recompensado", "restaurado" ou "completo". Alguns acadêmicos sugerem que Salum era o seu nome pessoal antes de ascender ao trono e adotar o nome régio Yeho'achaz.
Em 2 Reis 23:33, a ação do faraó ao aprisionar Joacaz é descrita com a frase: va-ya'asrehu Phar'oh Nekho ve-Rivlah, traduzida por "e o faraó Neco o prendeu (ou amarrou) em Ribla". O verbo asar denota o ato de atar com cordas, correntes ou grilhões, expressando a perda total da liberdade e da soberania real.
Em Jeremias 22:10, a expressão usada para descrever o destino de Joacaz no exílio é bakhu vakho la-holekh, traduzida por "chorai amargamente aquele que vai". A repetição enfática da raiz bakha na forma de absoluto infinitivo com o verbo finito (bakhu vakho) intensifica a dor da lamentação: trata-se de um chorar inconsolável, pois a partida do rei para o Egito marcava a primeira deportação permanente de um soberano davídico sem retorno à Terra Prometida (ki lo yashuv od — "porque não voltará mais").
4. Tipologia e Cristocentrismo
A breve e trágica trajetória de Joacaz oferece um vivo contraste tipológico com a pessoa, o sacerdócio e o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Joacaz representa o monarca terreno imperfeito e vulnerável, que assumiu o trono por escolha humana do am ha-aretz, mas falhou em governar com justiça e fidelidade ao Senhor. O seu reinado durou apenas noventa dias, terminando em prisão, desonra e exílio perpétuo na terra da escravidão. Em contrapartida, Jesus Cristo é o verdadeiro e definitivo Filho de Davi, ungido não por vontade da carne ou da decisão humana, mas pela escolha eterna de Deus Pai e pela unção do Espírito Santo, conforme ensina Isaías 61:1 e Lucas 3:22.
Enquanto Joacaz foi levado acorrentado ao Egito e nunca mais viu a sua pátria por causa das suas transgressões e da fraqueza de seu reino, Jesus Cristo voluntariamente tomou sobre Si as nossas cadeias e a nossa condenação no Calvário (Isaías 53:4-5). Cristo enfrentou o exílio da rejeição e o abandono na Cruz para nos libertar da escravidão do pecado e do império das trevas, ressuscitando gloriosamente ao terceiro dia para reinar eternamente à direita de Deus (Colossenses 1:13-14 e Hebreus 1:3).
Além disso, Joacaz foi deposto e teve o seu reino tributado e dominado por um imperador pagão. Jesus Cristo, por sua vez, é o Rei dos reis e Senhor dos senhores, cujo reino não é deste mundo e jamais será destruído ou entregue a outro povo (Daniel 2:44 e Apocalipse 19:16). O Seu governo não traz tributos opressivos, mas concede paz, justiça e vida abundante aos Seus súditos.
Esta dinâmica fundamenta-se nos ensinamentos da Confissão de Fé de Westminster (Capítulo VIII - De Cristo o Mediador), que ensina que o Senhor Jesus cumpre com perfeição absoluta os ofícios de Profeta, Sacerdote e Rei da Sua Igreja, governando-a por Sua Palavra e Espírito, e protegendo-a contra a investida de todos os seus inimigos terrenos e espirituais.
5. Arqueologia e História da Igreja
O reinado de Joacaz e o evento de sua deposição por Neco II encontram-se firmemente enraizados no contexto documental e arqueológico do antigo Oriente Médio no final do século VII a.C.
Uma das fontes extra-bíblicas mais importantes para a sincronização deste período é a Crônica Babilônica (especificamente a Crônica de Nabopolassar, preservada no Museu Britânico). Ela registra com precisão os movimentos militares do faraó Neco II em 609 a.C., confirmando a sua marcha pelo Levante em direção ao Eufrates para apoiar o exército assírio em Harã, e o estabelecimento do seu controle temporário sobre a região da Síria e de Israel antes da batalha decisiva de Carquemis em 605 a.C.
Além disso, escavações arqueológicas no sítio de Ribla (localizado no atual vale do Beqaa, no Líbano) confirmam que o local servia como o principal quartel-general estratégico e centro de comando militar para os impérios que operavam no Levante, sendo usado tanto por Neco II para julgar Joacaz quanto, mais tarde, por Nabucodonosor II para julgar e cegar o rei Zedequias (2 Reis 25:6). Pesquisas epigráficas e achados de selos administrativos na região de Judá também mostram a mudança abrupta no padrão de tributação e pesos após a intervenção egípcia de 609 a.C.
Na História da Igreja, o lamentável destino de Joacaz foi tomado por teólogos e comentaristas como uma profunda lição sobre a instabilidade da glória humana e a brevidade do juízo. O reformador João Calvino, ao comentar as passagens de Jeremias 22 e 2 Reis 23, observou a velocidade com que o juízo de Deus se abateu sobre a casa real após a morte de Josias. Calvino ressaltou que a população de Judá presenciou a queda de seu rei em apenas três meses porque confiou na força de alianças políticas e no prestígio da dinastia, esquecendo-se de que a verdadeira fortaleza de uma nação reside na obediência ao Deus Vivo.
O pregador Charles Spurgeon abordou a lamentação sobre Salum (Joacaz) destacando a tragédia de uma vida que começa com grandes expectativas e termina no cativeiro sem utilidade para o Reino de Deus. Spurgeon exortou a sua congregação a considerar a solenidade da oportunidade presente, alertando que a posição social ou a herança familiar piedosa (como a de ser filho de Josias) de nada servem se o indivíduo não se arrepender e andar pessoalmente em santidade diante de Deus.
A era dos pais da Igreja primitiva, como João Crisóstomo e Agostinho de Hipona, também utilizou o contraste entre a brevidade dos tronos terrenos (como o reinado de noventa dias de Joacaz) e a eternidade do Reino do Céu para exortar os crentes a não colocarem a sua esperança em príncipes ou estruturas políticas passageiras, mas em fixarem os seus olhos na Cidade cujo arquiteto e edificador é Deus (Hebreus 11:10).
6. Aplicação Pastoral e Conclusão
A breve e melancólica história do rei Joacaz de Judá dirige-se com profunda solenidade pastoral à igreja contemporânea. Em primeiro lugar, ela nos adverte sobre o perigo de viver de aparências e de heranças espirituais terceirizadas. Joacaz era filho do maior rei reformador de Judá, cresceu à sombra do Templo restaurado e ouviu a leitura do Livro da Lei. Contudo, assim que assumiu a responsabilidade pessoal do trono, revelou um coração estranho ao Deus de seu pai. A fé verdadeira não se transmite automaticamente por linhagem familiar ou ambiente religioso; cada geração e cada coração precisam ser regenerados pelo Espírito Santo e firmados na Palavra.
Em segundo lugar, a vida de Joacaz nos alerta contra a ilusão do poder e das soluções puramente humanas em tempos de crise. O povo da terra acelerou a coroação de Joacaz buscando uma solução rápida para a crise política criada pela morte de Josias, mas em apenas noventa dias a nação viu o seu rei acorrentado e a terra sujeita a impostos escorchantes. Quando confiamos na sabedoria carnal ou em arranjos políticos para resolver problemas espirituais, atraímos frustração e cativeiro ainda maiores.
Por fim, a profecia sobre o exílio permanente de Salum nos convida a fixar a nossa esperança em Jesus Cristo, o Rei que jamais nos deixará ou nos abandonará. Enquanto os príncipes deste mundo falham, são depostos e levados cativos, o nosso Redentor vive e reina vitorioso. Que possamos rejeitar o caminho da impiedade e caminhar em humildade e fidelidade perante o Rei dos reis, sabendo que a nossa cidadania eterna está segura nos céus.
Autor: Macelo Carvalho Nascimento